Reconhece e representa a comunidade

Nesta newsletter falamos sobre como encontrar e construir uma comunidade e como a representar.

A união que reforça a força

Ao longo das entrevistas que fizemos – durante a fase inicial do projecto, procedemos a uma investigação sobre o que é ser TI em Portugal, em parceria com a Inês –, o tema Comunidade foi quase invariavelmente abordado. As vantagens que alguns sentiam em usufruir de redes sociais diversificadas e com dimensão, somavam-se às frustrações que outros apresentavam por haver entre profissionais das mesmas áreas ou categorias fiscais a reserva de informação ou as artimanhas da concorrência.

Mas apesar disso, foi visível a vontade – e curiosidade – dos profissionais liberais estarem unidos e de perceberem as dificuldades e as dores dos semelhantes.

Por nos aproximarem em gestos superficiais como o like, dando a impressão de sermos próximos, as redes sociais digitais vêm muitas vezes ofuscar o lado mais cru do que é ser um TI. Mas, sendo a finalidade destes perfis de foro comercial, dá-se primazia à partilha do resultado final, do concluído, do bem feito. E de parte fica a parte mais complexa de todas: o processo, os "não"s, os atrasos, os problemas e as dificuldades sentidas até à solução ou até ao cancelamento do contrato.

Acabamos por mostrar apenas aquilo que é "apresentável", o que acarreta o problema de não corresponder inteiramente à realidade. Mais do que olhar para estas plataformas de divulgação como canais para angariar novos clientes e para expandir a nossa rede de contactos, é preciso também encará-las como veículos para alcançar os nossos pares e a nossa comunidade.

Numa das nossas entrevistas, alguém referia o termo "rede de afinidades". E de facto parece-nos um termo acertado. Mais do que uma rede de contactos, é importante que de facto te relaciones com a tua comunidade. Mais do que uma rede extensa, é importante que te rodeies de uma rede de pessoas em quem confies, da tua área ou de áreas complementares à tua.

O trabalho independente pode, por vezes, ser imprevisível, por isso é importante que tenhas ao teu lado pessoas de confiança a quem possas pedir apoio quando estás numa situação de prazos apertados, com quem partilhes dificuldades com situações novas e desconhecidas, ou então com quem possas simplesmente trocar ideias. É essencial manter contacto com pessoas da área, perceber em que moldes estão a trabalhar, os processos pelos quais passam e, acima de tudo, as dificuldades que enfrentam. Vais perceber que não são assim tão diferentes das tuas. Aliás, muito provavelmente serão bem semelhantes. E se sozinho ainda não encontraste forma de solucionar essa dificuldade, juntos conseguimos muito mais rapidamente encontrar um fim ao problema.

Reconhecer a comunidade

Mas afinal qual é a tua?

Num período em que, aliada à febre do empreendedorismo, vem a febre das nomenclaturas profissionais, onde se arranjam nomes para todas as variantes da mesma profissão-mãe, vamos complicar um pouco:

Eu sou jornalista, escritor de contos, gestor de conteúdos, copywriter empresarial, sério jogger e freelancer.

Por se tratar de uma nomenclatura legal e fiscal, ser TI geralmente não é pensado como algo que nos torna diferentes dos demais profissionais da nossa área. Mas, apesar de muitas vezes o que entregamos ao cliente ser o mesmo, a verdade é que os processos, as rotinas e as negociações por que um TI passa, são em tudo diferentes dos seus colegas de trabalho da mesma área profissional mas em regime de contrato de trabalho. E são muito mais próximos de qualquer outro TI, mesmo que esse trabalhe numa área de natureza muito distinta.

Então eu sou todas aquelas coisas, mas ser freelancer é mais próximo do meu pronome do que talvez até a minha área profissional principal.

Eu sou freelancer, jornalista, escritor de contos, …

Uma das minhas comunidades é a dos trabalhadores independentes em geral.

E as outras?

Encontrar a nossa "família profissional"

Depois da comunidade de TI’s, seguem-se as comunidades profissionais, que podem ser únicas ou várias. Se a comunidade de TI’s nos oferece apoio, compreensão e cooperação entre profissionais liberais, a comunidade profissional oferece-nos oportunidades ao posicionar-nos no nosso mercado de trabalho.

As instituições de ensino são o sítio base onde muitos de nós começam a lidar com os "seus", mas é importante diversificares a tua rede e encontrares outras afinidades noutros locais – podes nem vir de um sistema de ensino tradicional. Os espaços de trabalho, por exemplo, podem ser um local de criação inevitável de afinidades. Seja um espaço partilhado com conhecidos, ou então um local de co-work onde desconhecidos se podem tornar aliados com facilidade. Estas pessoas acabam por ser os teus colegas de escritório, os teus colegas de equipa. Às vezes um espaço como um café pode agregar uma comunidade de partilhado interesse profissional. É importante estar atento, mas também receptível.

É através destas redes de contactos que muitas vezes surgem novos projectos e oportunidades de trabalho. O boca a boca é, de facto, a ferramenta mais eficaz na divulgação do nosso trabalho. É importante que as pessoas com quem trabalhamos fiquem satisfeitas, pois dessa satisfação, muitas vezes surgem recomendações espontâneas a outras pessoas. Trabalho puxa trabalho… Diriamos até que bom trabalho puxa trabalho ainda melhor.

Um trabalho competente por si só, não significa necessariamente sucesso profissional. Como um trabalho incompetente também não resulta obrigatoriamente em insucesso. Existem questões relacionadas com a área profissional dos trabalhadores, com a geografia onde habitam ou a própria natureza de cada um que, por vezes, podem facilitar ou prejudicar uma vida profissional duradoura e estável. Mas não desesperes, com informação e aprendizagem, tudo é ultrapassável e o teu espaço, caso não o tenhas descoberto, está aí à espera de ser encontrado.

Representar a comunidade

Depois de descoberto esse espaço, é importante que o defendas, tanto o teu espaço pessoal e o teu trabalho, como a tua própria comunidade.

É importante cultivares uma boa relação com os teus pares e é igualmente relevante teres uma carteira de clientes consistente e consolidada, baseada nesse mesmo princípio. Na maioria dos casos, as oportunidades de trabalho acabam por surgir por referência e recomendação de antigos clientes, colegas ou amigos.

Procura encontrar um equilíbrio entre tempo de trabalho propriamente dito e tempo para tarefas complementares. A auto-promoção é uma delas. E muitas vezes auto-promoção significa teres uma boa comunicação e saberes divulgar o teu trabalho.

Representa-te

Em muitas áreas, as redes sociais são autênticos fenómenos de gerar clientes, noutras ter um website é obrigatório. Tenta encontrar o teu nicho e aquele em que o teu público-alvo se insere. Por vezes estas plataformas estão ligadas com a própria natureza de cada área profissional. Áreas mais criativas e de natureza "visual", têm mais impacto no Instagram ou num website próprio, ao invés de que áreas relacionadas com a tecnologia ou mais corporativas, encontram em plataformas como o LinkedIn uma melhor divulgação do seu trabalho.

Uma presença digital hoje em dia é quase essencial na maioria das áreas profissionais. Mas o boca a boca ainda faz muita diferença e é essencial que o aprendas a dominar para que te seja beneficial. Pelo menos deves aceitar a sua importância como ferramenta de trabalho.

Sentimo-nos mais confortáveis e confiantes em trabalhar com alguém que nos foi recomendado, e é natural que assim seja. É importante, por isso, criarmos boas relações e primeiras boas impressões. Ter um cartão de visita sempre à mão pode ser essencial para encontros espontâneos. Mantermos o contacto com antigos colegas e/ou clientes pode ser uma excelente forma de iniciar novos projectos.

Acima de tudo, estar pronto, mostrar abertura para ouvir o que o outro tem para dizer, apresentar as competências certas e interesse em colaborar, e o resto, de certeza que virá atrás.

Representa-nos

Mas e o que podes fazer pela tua comunidade? Independentemente da forma como encontras as tuas oportunidades de trabalho, da forma como te relacionas com a tua comunidade ou como encontras pessoas para colaborarem contigo, procura sempre ser ético.

Não explores o trabalho dos outros, mesmo os teus sub-contratados. Eles são teus colegas e vocês pertencem todos ao mesmo todo. Amanhã a vossa relação pode ter-se invertido.

Não faças concorrência desleal. Procura perceber os preços que são praticados na tua área. Ao baixares o teu preço, baixas o de todos. Se queres mesmo ficar com o projecto, mostra ao cliente qual é o verdadeiro preço desse trabalho no mercado e conversem sobre como podem chegar a um valor que vá mais de encontro às suas expectativas e possibilidades. Sê claro e transparente. E não te esqueças que a definição de bom trabalho inclui uma boa compensação, seja ela qual for, tem de existir.

Procura a tua comunidade. Percebe quem são os teus colegas e onde podes encontrar o teu círculo de afinidades. Rodeia-te da tua comunidade, dos teus “colegas de escritório”, seja por canais digitais ou presencialmente. Contrata e confia em TI’s.

Ajuda o próximo e deixa que te ajudem a ti. Discute preços, abordagens, decisões tomadas, problemas e opiniões. Uma comunidade informada e unida significa uma comunidade mais forte, que evolui.

E é isso que todos queremos, não é?

Uma classe mais justa. Mais esclarecida. Mais capaz.

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Fazer da rotina uma arte

Vamos falar sobre gestão de tempo, criação de rotinas sustentáveis, multi-funcionalidade, estrutura e disciplina

És independente. E agora?

Ao reflectir sobre o que significa ser um trabalhador independente, é muito fácil virem-nos à mente palavras como liberdade, sucesso, determinação, força e claro, independência. Pode parecer um cliché, mas aquela frase tornada conhecida pelo tio do Spider-Man, não podia ser mais adequada ao caso - 'with great power comes great responsibility'.

É uma responsabilidade pesada seres dono do teu tempo e seres o teu próprio patrão. És tu que ditas as regras, mas também és tu que tens que viver com elas, perceber se estão certas, se têm que ser alteradas ou se tens de as quebrar de vez em quando.

Ser independente requer muita energia, mas é importante saber como aplicar e gerir esse bem essencial. Por outras palavras, é importante teres estrutura.

Estrutura para quê?

A palavra estrutura às vezes assusta. Podes dizer 'mas eu tornei-me independente para ser dono de mim e fazer as coisas à minha maneira'. Isso é válido e continua a ser verdade. A questão é que precisas na mesma de uma estrutura, de um modo de fazer. A beleza de tudo isto é que agora és tu a criar a tua estrutura e a tua 'maneira'.

A estrutura ajuda-te a criares uma dinâmica de trabalho e uma rotina sustentável, ajuda o teu cliente a perceber quando e como vai receber o trabalho que te pediu, ajuda os teus colaboradores a saberem quando estás on e quando te podem ligar e, por fim e não menos importante, ajuda-te a ter um equilíbrio saudável entre profissão e espaço pessoal.

Existem estruturas e rotinas de trabalho muito diferentes e aquilo que estamos aqui a propor não é uma solução mágica para todos os casos. Aquilo que consideramos ser o essencial é a consciencialização de que a estrutura deve estar lá, mas cabe-te a ti definir qual o seu aspecto.

Comecemos pelo dia

Um dia de trabalho tem, usualmente, 8 horas. Chega a manhã e: voilá, tudo em aberto.

Podes começar por analisar os projectos que tens em cima da mesa e, caso existam prazos definidos, determinar a prioridade de cada um deles. A partir daí, podes fazer um exercício de desconstrução de cada projecto em fases.

Seja um projecto que estás cheio de vontade de iniciar ou um outro que simplesmente tens mesmo que fazer, é fundamental saberes com o que estás a lidar. A verdade é só uma: seja de que forma for, vais ter que ser tu a pôr mãos à obra e vais ter que ser tu a entregar o trabalho a tempo e horas. Por isso, segue sem medo e procura perceber em que partes podes decompor o projecto, que tarefas ao certo vais ter que fazer, quando é que as pensas fazer, que dúvidas ainda tens, que material ou informação ainda necessitas para prosseguir, etc.

Se nuns momentos estás mais apto para trabalhar em questões mais complicadas, noutros a tua disposição vai-te pedir uma tarefa mais simples ou mais pragmática. Tendo tudo isso listado, torna-se mais fácil continuares a trabalhar, mesmo que a vontade não seja enorme.

Teres um objectivo delineado e decomposto em tarefas permite-te ganhar mais controlo sobre o teu tempo, ajudando-te na organização do teu trabalho mas, e sobretudo, no equilíbrio entre profissão e vida. Ninguém adora fazer horas extra.

Antes de fechares o dia, e se estiveres com espírito para isso, experimenta organizar o dia seguinte. Esta técnica pode ajudar-te a relaxar, sabendo que já tens o dia de amanhã delineado.

Algumas dicas:

  • Faz pausas regulares no teu trabalho para alimentação e hidratação.

  • Se trabalhas em frente ao computador, levanta-te e estica os braços, espreguiça-te, tenta trabalhar alguns momentos de pé, exercita-te.

  • Bloqueia sempre a tua hora de almoço para isso mesmo, aproveita-a para relaxares e alimentares-te calmamente, com respeito pela tua digestão, pausa e pelo teu tempo – não tens de fazer pausas de uma hora ou duas, se não quiseres, mas tira pelo menos o tempo da refeição: 30 minutos devem chegar. A correria do trabalho activa-nos o sistema nervoso simpático e o meio do dia é um momento óptimo para contrariar isto, relativizar o que estamos a fazer e desacelerar.

  • Tira sempre 10/15min. antes de cada reunião para te preparares. Faz um plano da reunião, aponta dúvidas ou questões que tenhas pendentes com esse cliente/colaborador. Prepara o que vais dizer – vais-te sentir mais confiante, relaxado e em controlo da situação.

Segue-se a semana

Para além do planeamento diário, pode ser importante no início ou no fim de cada semana analisares se conseguiste cumprir com as tarefas que tinhas definido. Esta análise vai-te permitir ajustares timmings, perceber bloqueios que tenham acontecido e preparar a semana seguinte. Prevê uma margem de erro no tempo que defines para cada tarefa e não incluas demasiada coisa num só dia. E o mais importante: não sejas demasiado rígido contigo mesmo, embora devas ser sempre honesto.

Se na semana passada fizeste horas extra, se trabalhaste até tarde, se fizeste uma noitada, fizeste-o porque conscientemente querias, porque estavas 'inspirado' ou porque simplesmente a tua organização se descontrolou? Foi uma consequência ou uma acção ponderada? Como é que isso afecta a tua vida?

Não podemos fazer tudo, mas também não é preciso. — Donald Roos

Com a experiência, vais encontrar o teu ritmo semanal certo. Se, ao longo do dia, existem certamente momentos em que és mais produtivo, o mesmo acontece durante a semana. Quem nunca sentiu aquela dificuldade em arrancar à segunda de manhã? É importante que sejas honesto ao identificar o teu ritmo, toda gente tem o seu. É essencial que te conheças, para que possas moldar as tuas tarefas a esse ritmo e tirar o máximo proveito disso.

Avançando para o mês e o ano

O trabalho independente muitas vezes leva-nos a interpretar vários papéis. Precisas de ter um lado obviamente ligado à tua profissão propriamente dita, mas também um lado comercial, um lado contabilista, um lado gestor, etc. É importante que consigas arranjar tempo para todas estas funções, faz parte. A multi-função é algo com que tens que lidar.

Por exemplo, pode acontecer que, no início do mês, tenhas de colocar o chapéu de gestor e procurar organizar os projectos que tens em mãos. Pode acontecer também que, no fim do mês, tenhas que usar mais o chapéu de contabilista, que tenhas de enviar orçamentos, pagar a Segurança Social ou actualizar o teu documento de despesas. São actividades quase obrigatórias, não há como fugir, por isso o melhor é encontrares o tempo certo, o momento ideal para lidares com elas.

Chegado àquele querido mês de Agosto, é importante que tenhas os teus clientes e colaboradores avisados com antecedência das férias que pretendes tirar. É obviamente importante que planeies com tempo estas ausências e que deixes o trabalho organizado para que durante esse período não sejas necessário. Em caso de emergência, pode ser importante deixares o contacto de algum colega que possa ajudar numa situação imprevista.

Para avisares os teus clientes destes períodos de férias, é essencial que os informes logo no início de cada projecto, que tenhas um calendário partilhado que contenha estas datas e, quando se aproximar a data, que voltes a reforçar por telefonema ou e-mail, para que ninguém seja surpreendido.

Tempo mental

És organizado. E agora?

Por muito que planeies os teus dias, semanas, meses, anos, há simplesmente coisas que não vais conseguir controlar e que te vão influenciar certamente as tuas rotinas, as tuas fundações.

Uma estrutura protege-te também aqui, dá-te momentos em que podes estar mais activo, momentos em que podes estar mais relaxado ou momentos em que podes estar mais ausente.

Mas o que fazes se o teu espaço mental não está arrumado? Por vezes precisamos de quebrar a rotina, de admitir que está na hora de parar, que amanhã é outro dia. É importante que encontres esse tempo mental para organizares ideias, te ouvires a ti mesmo e perceber por onde seguir.

O objectivo da estrutura deve ser sempre proporcionar-te mais tempo. Mais tempo físico e mental. É importante que te limpe a secretária e a consciência. É importante que sintas que estás em controlo para improvisar e optar. Se já terminaste a lista de tarefas para hoje, porque é que ficas na mesma sentado ao computador? Se hoje não dá mesmo, então porque forças? Se não podes lidar agora com esse e-mail, porque é que o estás a ler? Rentabiliza a energia.

Um cliché novamente: a vida está lá fora à espera. Não foi por isso que te tornaste independente? Para seres realmente dono do teu tempo? Aproveita-o então.

Gosto de rotina. Permite-me improvisar. — James Nares

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Alcançar aquela montanha

Vamos falar sobre como deves procurar ganhar perspectiva, estabilidade e equilíbrio entre os vários momentos da tua vida. No final, deixa-nos um comentário e partilha as tuas experiências.

Há muitos motivos para se ser trabalhador independente: somo-lo porque nos acontece ou porque a nossa área nos acomoda dessa maneira; somo-lo porque há um apelo irresistível pelo domínio, ou o aparente domínio, de todas as partes da nossa vida; somo-lo porque precisamos de controlo sobre o nosso tempo para tratar de um parente doente ou da nossa doença; somo-lo porque o somos e isso está enraizado em nós. Todos os motivos são válidos, mas nem todos estão alinhados connosco.

Sermos gestores de todas as áreas da nossa vida, incluindo o trabalho, pode trazer-nos coisas positivas e negativas. Nem tudo é um mar de rosas, nem tudo é uma dificuldade tremenda. Como em qualquer montanha, há subidas e descidas e tudo que é complicado alivia. O segredo é encontrar equilíbrio.

Quando falamos em equilíbrio, não queremos que imagines um equilibrista a atravessar um fosso entre dois blocos de terra num precipício, mas que penses na montanha com um planalto em que tens espaço para te mexeres e viveres confortavelmente. A ideia é atingir uma vida saudável e feliz e o nosso trabalho pode ser tanto a origem de realização e conforto, como de desespero e tristeza.

Há muitos factores que tanto nos podem conduzir a subida confortável da montanha como à queda abrupta. E muitos deles começam em nós, no nosso meio, e no que fazemos por ele.

Tu não és o teu trabalho

Quando somos TI's, a identificação com o nosso trabalho é algo difícil de evitar. Todos os nossos momentos são possíveis momentos de trabalho: quando conhecemos alguém, podemos estar a fazer um contacto; quando saímos para jantar com amigos, podemos receber uma chamada porque algo ficou por fazer ou explicar a um cliente. E é importante traçar limites. O nosso trabalho é uma porção importante das nossas vidas – trabalhamos uma grande parte do nosso tempo – mas as outras porções são tão ou mais importantes e deves defendê-las com garra. Há um momento em que deves pensar em ti como um indivíduo com multitudes e não como um jornalista, designer, personal trainer, etc.

Repara se começas as tuas apresentações fora do ambiente profissional com o teu nome e a tua profissão. Faz um exercício por mudar isso: o que vais dizer? É difícil não é? Ninguém disse que seria fácil.

Não sejas o teu pior inimigo

Na verdade, não sejas teu inimigo de todo. Mas isto não é assim tão fácil. Quando trabalhamos, quando vivemos até, a nossa mente tende a ser o nosso pior amigo. É ela que nos lembra que ainda não duvidamos das nossas capacidades hoje, que se calhar estamos a pedir muito por projecto e que talvez tenhamos mesmo cometido um erro tremendo naquela entrega e que não merecíamos o que recebemos.

No mundo do trabalho devemos eliminar inimigos sempre que possível, ora por transformá-los em colegas saudáveis, ora por nos afastarmos de relações profissionais que não funcionam. Mas é importante que te trabalhes a ti. Que guardes próximo de ti o que fazes bem. Que tenhas momentos realistas (ou irrealistas) de auto-aprovação. Pat yourself on the shoulder. E lembra-te quando fizeste e quando estás a fazer um bom trabalho: nem sempre temos por perto pessoas capazes de nos congratularem e, quando não temos uma equipa que nos apoie, isso pode ser ainda mais agressivo. Sê teu amigo.

Não sejas desonesto

Com os outros, fá-lo sem seres enganado. Tem cuidado e protege-te. Num mundo perfeito, não existe sinceridade a mais, mas – caso não tenhas aberto o jornal hoje, fá-lo – não vivemos num mundo perfeito. Sermos honestos é uma virtude indispensável para seres um bom profissional: as pessoas resistem a alguns níveis de honestidade, mas, no final, acabam a olhar para um profissional honesto como alguém com quem podem contar e toda a honestidade acaba por compensar e trazer-te a bons portos.

Mas e contigo? Consegues ser sincero contigo? Consegues apontar quando erras e verificar se a história que contas a ti mesmo corresponde à verdade? Erraste mesmo? Se sim, porque erraste? Onde erraste? Com que intenção erraste? Veres o teu mundo com clareza pode ajudar-te a separar águas e ganhar perspectiva sobre o que realmente aconteceu. E outra coisa: sê principalmente sincero contigo quando não erraste. Tendemos a não registar tanto esses momentos a menos que seja um terceiro a dizer-nos.

Não te roubes

Tu és tu, quer estejas a trabalhar, a descansar ou a viver qualquer outro aspecto da tua vida. Tu és sempre o mesmo. Contudo, sendo TI, é fácil cair em erros de rotina que nos podem levar a estados de vida gravosos, como por exemplo:

Há o indivíduo pessoal, que se deita livre e acorda indivíduo trabalhador, arrasta-se para o banho, vai para a secretária com as energias renovadas da manhã e lentamente vai-se transformando no indivíduo pessoal outra vez, mantendo quase duas personalidades diferentes no mesmo dia que mudam com o sol.

Ou o multitasker, que mistura tudo. Trabalha e vive ao mesmo tempo. Pára o trabalho para atender chamadas com amigos ou ir beber um café, mas vai sempre até às 2h da manhã a trabalhar, responder a emails e resolver coisas. No final, trabalha 8 horas como qualquer outra pessoa, mas nunca desligou.

Pensa na tua vida como um todo. Uma fortaleza com divisões. Usa cada divisão para a sua utilidade, cria espaços comuns se precisares, mas não os uses regularmente. Divide as coisas. E escolhe um local arejado e confortável para deixares a tua vida pessoal, trata-o bem, e mete dois guardas à porta capazes de segurar o forte e protegê-lo de visitas das outras divisões. Protege-te de roubos.

Poupa a tua energia

Quando lidamos com trabalho há sempre imprevistos, há sempre mal-entendidos, momentos em que tudo corre mal, momentos em que somos desrespeitados ou desrespeitamos. Momentos em que temos de não produzir para ponderar acções e momentos em que temos de reagir.

Isto exige um controlo mental grande. Aprender a agir em situações profissionais e reduzir o número de reacções que temos ao mínimo requer um grande auto-controlo. Quando alguém nos prejudica ou cria um desequilíbrio na nossa vida pessoal ao forçar-nos a trabalhar ao fim de semana, por exemplo, a nossa primeira vontade é reagir – e se calhar é a coisa certa a fazer. Mas é importante saber medir todas as situações, falar de cabeça fria e ponderar acções. Às vezes pedir a um cliente para desligar uma chamada e ligar 10 minutos depois, pode ser melhor que dizer algo que não sabemos se é correcto dizer e que pode criar um problema e uma discussão maior que a primeira. Não estamos a dizer para acatares o que te acontece. Mas sim para ponderares sobre o que te acontece.

Antes de mais, voltamos ao ponto fulcral que referimos em primeiro lugar: tu não és o teu trabalho. Apesar do teu bem-estar estar ligado à estabilidade financeira, e essa, ao teu trabalho, é importante mentalizares-te que não existem coisas irreversíveis. Há sempre outro cliente, outro projecto, outra oportunidade e outro momento, até existem outras profissões – apostamos que estás a pensar que o teu caso é diferente, mas isso talvez sejas tu e enganares-te, pondera bem e relativiza.

Relativizar a importância do nosso trabalho na nossa vida pode ajudar-nos a retirar o peso emocional da nossa capacidade de tomada de decisão, tornando-nos mais analíticos e racionais.

Quando a tua prioridade é salvaguardares o teu bem-estar, deves tentar que o teu trabalho, e tudo que não é do foro pessoal, invada o menos possível o teu espaço privado. Não deves levar trabalho para casa, nem na tua cabeça. E deves separar as águas. Mesmo que trabalhes com alguém com quem vives, devem evitar falar de trabalho em certos momentos: o que é mais importante?

Uma forma de teres uma boa separação do tempo de trabalho, é seres o mais eficiente possível. E eficiência e produtividade não têm que ver com utilizares todos os momentos para fazer coisas ou para atingir objectivos e tarefas feitas. Tem a ver com certificares-te que todas as tuas acções levam a resultados. Todos os teus gastos de energia têm frutos, por maiores ou mais pequenos que sejam.

Imagina: recebes uma chamada de um cliente que te impõe um prazo impossível de resolver e te força, desrespeitosamente, a mudar as tuas férias que estavam marcadas há meses. Desligas a chamada, dás um soco na mesa e dizes uma série de coisas para te aliviares. Um minuto depois, dói-te o dedo mindinho porque bateste mal com a mão, estás exausto por te teres enervado, mas continuas a ter de estruturar uma abordagem para conseguires salvaguardar as tuas férias e resolver a situação. O teu gasto de energia foi ineficiente e não trouxe frutos.

Sobe aquela montanha

Para subir a montanha, às vezes temos de parar, montar acampamento e dormir. Outras vezes corremos, mesmo no meio de uma área rochosa e perigosa, porque estamos enérgicos e queremos chegar ao próximo acampamento ainda hoje.

Tudo está certo, mas lembra-te de analisar.

Percebe que o objectivo não é subir sem parar, mas desfrutar da viagem.

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NL1: Quanto realmente custa um Euro?

Nesta newsletter, ajudamos-te a encontrar o valor médio que tens de facturar para conseguir pagar-te o salário pretendido, enquanto pagas impostos, despesas de trabalho e crias um fundo de emergência para o teu futuro enquanto trabalhador independente.

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Quanto custa realmente um euro?

Vamos falar sobre preços, impostos e despesas. No final, deixamos-te uma calculadora para encontrares o teu Salário Digno Independente.

Como deves calcular o valor do teu trabalho?

Preço/Skill? Preço/Mercado? Preço/Hora?

A primeira resposta que se costuma dar é uma fórmula quase matemática com o valor das tuas skills ou capacidades. A partir daqui, só terias de calcular quantas horas demoras e quantas horas podes permitir que o projecto se arraste e está feito: tens um valor mínimo e um máximo para cada projecto ou serviço e orçamentas um intermédio.

Porém, se esta for sempre a tua lógica, o máximo de rendimento que podes auferir é sempre o mesmo:

Partindo do princípio que consegues imputar aos teus clientes despesas de deslocação, horas de reunião, orçamentação e tempo ao telefone, ainda te sobram actividades de auto-promoção, gestão e até as horas a arrumar o local de trabalho, que não podem ser esquecidas.

Quando começas, aceitas estas actividades menores como necessárias e como um investimento em formato de tempo que tens obrigatoriamente de fazer. Mas, aqui, o objectivo não é o de encontrar um preço acessível para os clientes para que sejas contratado, mas o de encontrar o valor necessário para que a tua vida seja digna e todos os actos em volta do trabalho sejam devidamente pagos.

Qual é o preço do teu tempo? Qual é o preço da tua experiência? E do teu mérito?

Quando se fala nestes termos, somos forçados a empurrar o ego contra a parede e cunhar um valor ao nosso mérito. Mas a verdade é que o valor do nosso trabalho não é o nosso valor individual ou sequer enquanto profissionais.

Há algumas questões bastante técnicas e lineares que te podem limitar e ajudar a perceber como deves atribuir um valor a cada projecto:

  1. Perceber que gastos tens enquanto indivíduo. Esta secção é de carácter sensível. O patamar da sobrevivência e, mais que isso, o da vivência, devem ser garantidos sempre: habitação e despesas associadas, alimentação, transporte, educação de filhos, apoio a pais e avós, gastos com saúde, etc. Não te desrespeites no presente ao baixar o teu valor, e sê sincero com as tuas necessidades actuais. Ao mesmo tempo, projecta para o futuro e escala a pirâmide das necessidades.

  2. Analisar que gastos tens enquanto trabalhador. Podem ser directos (gasolina, papel, computador, etc); ou podem ser indirectos como manutenção de stress (para profissões onde o stress é uma constante) ou a manutenção física (para áreas fisicamente desgastantes).

  3. Manter um fundo de emergência. Este é um ponto pouco compreendido na comunidade em geral. O preço/hora de um trabalhador independente não pode ser calculado tendo por base o preço/hora de um trabalhador com contrato, dependente, que tem uma segurança maior. Quando falamos em prestação de serviços esporádica, tens de ter em conta que precisas de construir e manter um fundo de emergência a conta-gotas, a partir de cada projecto.

  4. Impostos e contribuições. Aqui a coisa é bastante técnica. (Quase) toda a gente os paga. E toda a gente os deve pagar. As regras são matemáticas e imparciais, e deves tê-las em conta sempre que calculas um preço.

Peguemos num Euro.
Quanto deste Euro são impostos, lucro, poupança, despesas fixas?

Porque cada caso é um caso, vamos analisar a situação da Rita. A Rita é gestora de redes sociais e tem gastos e rendimentos dentro da média nacional. Com a sua actividade profissional, a Rita consegue pagar os seus gastos pessoais, profissionais, ao mesmo tempo que constrói um fundo de emergência.

  • Gastos Pessoais
    Renda: 300€ + Alimentação: 175€ + Despesas fixas: 125€ + Extras e Transporte: 250€
    Total: 850€

  • Gastos Profissionais
    Computador Apple (a durar 7 anos): 3000€ = 35€/mês
    Escritório e despesas (num co-work): 100€
    Extras de material: 50€
    Total: 185€

  • Fundo de Emergência
    5% parece pouco, mas depois de já teres uma estrutura para emergências, deve ser o suficiente. Não deixes de a criar. Há sempre azares na vida e no mercado: pode chegar o dia em que ficas sem trabalho novo durante meses – tens de ter onde te agarrar!

  • Impostos e Contribuições1
    Retenção na fonte de IRS: 25%2
    Segurança Social: (Salário Bruto x 70%) x 0.2143
    Total: 40%

Se somarmos as nossas despesas com os impostos, obtemos as seguintes percentagens e acabamos a descortinar o nosso Euro4:

0.45€ Habitação, alimentação e outros
0.10€ Despesas de Trabalho
0.05€ Fundo de Emergência
0.40€ Impostos e Contribuições

Mas então, como calculas o teu salário bruto?

Vamos chamar-lhe SDI – Salário Digno Independente.
A questão do salário de um independente é uma questão sensível e com ela vêm muitas questões sobre precariedade e instabilidade financeira. Mas isso não tem de ser assim. É importante que te pagues um valor estipulado como salário, mesmo quando factures mais (para que tenhas, nas tuas finanças profissionais, dinheiro suficiente para que, quando factures menos, te possas pagar o mesmo valor).

Tendo em conta tudo o que foi mencionado acima, e ainda no exemplo da Rita, percebemos que, por cada euro que a Rita factura, a Rita recebe para as suas despesas pessoais 0.45€, pelo que, extrapolando a informação, facilmente percebemos que cada Euro lhe custa realmente 2.21€.

Então, para ter 850€ para despesas pessoais, a Rita tem de facturar pelo menos 2052€ brutos por mês de trabalho. É uma conclusão que custa ler, mas este é o cenário ideal. A Rita consegue trabalhar apenas 11 meses por ano e ter direito aos tão merecidos 22 dias de férias. Em cima disto, a Rita arrecada ao fim do ano 1128€ em Fundo de Emergência, paga os Impostos e Contribuições na totalidade e, com as despesas pessoais e profissionais que vai apresentar na Declaração de IRS, vai receber um reembolso no ano seguinte, somando ao Fundo de Emergência de cariz profissional, uma poupança pessoal para gastar como quiser.

Contas feitas, o valor hora da Rita é então de 12€.5

No futuro, vamos escrever sobre salário mínimo e viver mês a mês, mas o objectivo desta primeira abordagem é dizer-te para onde deves apontar: uma vida digna onde o teu trabalho é bem pago, te dá segurança e te permite olhar e planear o futuro.

Agora sabes calcular o teu valor digno.
E o céu é o limite.

A partir daqui, deves fazer um esforço por estudar a tua área. Não tenhas vergonha: pergunta, procura e investiga. Usa os teus pares – e não os clientes – para definir o teu valor: lembra-te que todos os orçamentos que enviares vão ser renegociados ou adjectivados. Geralmente (mas não sempre), quando um orçamento é aceite sem negociação é porque está abaixo do valor do mercado. Descobre qual é esse valor e actualiza preços anualmente (se não os aumentares, ao menos repensa-os.). Não deixes que te cunhem com termos como 'caro' ou 'barato': só tu podes definir o teu preço.
Para te ajudar a fazê-lo, criámos uma calculadora de salário para que possas definir o teu SDI e o teu salário ideal ou desejável.

Percebe o teu sector. Respeita a tua comunidade. E sê ético.

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Calculadora de Salário Digno Independente

Calcular preços é sempre uma dor de cabeça, especialmente quando ainda estás a dar os primeiros passos e não tens noção de quanto tens de pedir.
Esta calculadora está pensada para que estudes quanto queres ganhar.
Faz download e guarda esta calculadora para que possas ir estudando e actualizando o teu SDI.

1

Contas feitas para um trabalhador de Categoria B com código previsto do artigo 151º do CIRS.

2

A retenção na fonte não tem em consideração o teu escalão de IRS. É um valor previamente definido, que não tem em conta as tuas despesas em regime simplificado ou em regime de contabilidade organizada (mais sobre isso mais tarde). Geralmente, na maioria dos casos, este valor ultrapassa o valor da colecta de IRS liquidada, calculada na declaração e liquidação de IRS efetuadas no primeiro semestre do ano fiscal seguinte.

3

Esta é a fórmula básica e automática de cálculo dos pagamentos à Segurança Social. Aqui, ainda podemos requerer um acréscimo ou redução de 25% do resultado desta fórmula (mais sobre isso mais tarde).

4

Valor calculado através da soma de despesas previstas nos 4 pontos, num total de 1881,13€/mês.

5

Tem em conta que os valores aqui são exemplificativos e que na prática a realidade é um pouco mais benevolente. Há um escalão de isenção de IRS e, caso te situes nesse escalão, a tua percentagem de impostos apenas irá incluir Segurança Social, descendo consideravelmente. Para além disto, um caso como o da Rita apenas seria taxado em IRS em 75% do que ganha, mesmo que faça retenção sobre 100%, tendo direito a um reembolso considerável de IRS, no ano seguinte. Como dizemos no ponto anterior, a Segurança Social também te permite uma redução de 25% do valor calculado para pagar, pela qual podes optar (o que irá diminuir o valor da tua contribuição e, consequentemente, o valor dos teus benefícios). Há alguma flexibilidade para gerir este valor apresentado.

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