O que devemos uns aos outros

Nesta newsletter continuamos a falar de comunidade, mas com especial foco em códigos de conduta, confiança entre os nossos pares, transparência e honestidade no modo de pensar o trabalho independente.

Independência e interdependência

Mesmo depois de escrevermos sobre comunidade e sobre como a representar, na última newsletter, houve um tema que se manteve presente mas por aprofundar: afinal o que devemos uns aos outros?

A palavra 'independente' é muitas vezes um falso amigo. Traz para a discussão ideais como o de liberdade, de autonomia, de solitude e, claro está – sinta-se a redundância – de independência. Mas, se o seu uso for correcto, deve atrair também palavras como responsabilidade, auto-regulação e interdependência – pondo em confronto estas últimas com as primeiras.

Se analisarmos em detalhe, o trabalhador independente não é independente – já que a sua permanência em activo está dependente de uma série de factores. Diriamos então, mais correctamente, que o trabalhador é autónomo: o trabalhador é administrador do seu próprio trabalho, tempo e tarefas, é responsável integralmente por ele, porém, pertence também ele a uma classe profissional gigantesca e global.

Este tipo de trabalhador recaí – como acontece com os trabalhores por conta de outrem – em duas categorias: a sua área profissional (educação, jornalismo, medicina, etc.) e o seu regime profissional (trabalhador independente ou por conta de outrem). A manutenção do seu regime profissional, o manter das condições de trabalho, da justiça dos impostos, da busca e manutenção dos direitos profissionais, a opinião da sociedade e a crença empresarial nos serviços múltiplos que presta, é, pela sua parte, da sua responsabilidade.

Portugal é um país onde o prestação de serviços independente ainda é um fenómeno novo em certas áreas e o seu sucesso ou insucesso estará sempre dependente do sucesso ou insucesso dos muitos contratos e prestações singulares que vão sendo feitas diariamente. É a notável vantagem da contratação de trabalhadores independentes que mantem e fomenta este regime.

Não é um mundo de cão come cão. É um mundo de relações humanas e éticas.

Código de conduta: o que é e porquê ter um?

Em profissões mais antigas – e consideradas mais nobres – é habitual o seguir de um código de conduta comum a todos os profissionais. E, em casos onde exista uma Ordem a regular a profissão, o código deontológico tem até implicações que podem dar origem a processos disciplinares e a suspensão da carteira profissional.

Estes códigos de conduta geralmente têm dois alvos: a relação trabalhador-colega, e a relação trabalhador-cliente. A manutenção e fidelidade a estes códigos impõe-se como obrigatórias em situações de interesse público (ex. médicos, engenheiros, advogados, etc.) e necessárias em situações de conservação da opinião pública sobre a área profissional.

O código de conduta, como a nossa moral, é algo que invariavelmente todos temos. Existe algures na nossa mente e é composto a partir dos nossos valores, experiências, memórias e acontecimentos. Mas o que propomos aqui é efectivamente a redacção de um código de conduta pessoal, transmissível (porque queremos exactamente que nos façam o que aceitamos fazer aos outros) e inacabado.

Os códigos de conduta servem-nos quatro propósitos:

O que devemos uns aos outros?

Ou, se quem planta ventos, semeia tempestades: 'o que nos devem a nós?' talvez seja a forma mais simples de abordar esta questão.

A construção e manutenção de uma comunidade sobrepõe-se àquela da nossa própria imagem pública e profissional. A forma como nos representamos e apresentamos, como honramos contratos e acordos entre colegas e clientes, o nível de transparência e honestidade que incutimos em tudo que fazemos, o nosso temperamento face às adversidades – todos estes pontos plantam no nosso caminho profissional sementes que ditam, em pequena escala, o sucesso ou insucesso da micro-comunidade em que nos movemos, e em larga escala e em proporção, o sucesso ou insucesso da classe profissional a que pertencemos.

Seja com clientes ou com colegas de trabalho – que muitas vezes são os dois em simultâneo – há alguns valores que deves cultivar para que, na ausência de um código de conduta estabelecido entre todos, te sejam devolvidos em igual medida.

Transparência e Honestidade

Seres transparente e honesto com o teu processo parece uma excelente ideia assim que se pensa nela. Mas, quando esta honestidade e transparência te é exigida em momentos críticos, pode pôr em jogo a tua continuidade em determinado projecto, trabalho ou até a relação com o cliente.

Quando deves aceitar ser a ovelha negra na sala? Quando todos tentam ignorar o elefante gigante cor-de-rosa em cima da mesa de reunião, e apontam a ovelha negra pessimista por falar do elefante, o que devemos fazer? Vestir o papel de ovelha negra é desconfortável. O teu cliente certamente não quer ouvir dizer que a tarefa pedida é impraticável ou que o deadline não é viável. Se o tranquilizares agora e falhares amanhã, arriscas-te a perder a sua confiança. Essa falha vai criar atrito com os clientes e/ou colegas: não seria melhor evitar?

Estes dois valores, se forem praticados mesmo em adversidade, levam aos dois seguintes, conferindo-te confiança e coerência perante clientes e colegas, ao mesmo tempo que fomentam nos outros uma sensação de obrigação e segurança em serem honestos contigo. Deves dar e exigir transparência.

Confiança e Coerência

Seres confiável e coerente em todas as situações é uma base essencial. Os teus clientes e colegas adoram sentir-se especiais – que de algum modo os colocas à frente dos demais e os escolhes como a prioridade – contudo ressentem-se ainda mais do oposto. Este equilíbrio difícil de manter, que te força a agir de modo igual em situações iguais, vai ser posto à prova constantemente. Mas é aqui que o teu código tem de ser forte, e o registo e memória das tuas decisões passadas essencial. Por mais que custe, a opinião geral que vai ficar na comunidade é a de que és confiável e coerente.

Flexibilidade

Estes códigos de conduta, por mais redigidos e cravados em pedra que estejam, são teoria. É importante ter em mente que a teoria serve apenas para pensar a prática e para a sustentar. Todas as regras podem ser quebradas e em cada caso deve ser analisada e possibilidade de o fazer, de modo a evitares seres percepcionado como rígido e difícil.

O que é rígido quebra mais facilmente. Permite-te moldar um pouco às situações sem quebrares os teus valores ou os da tua comunidade.

Materializa a tua consciência

Ter um código de conduta é um trabalho sem fim – as respostas às diversas situações mudam consoante a tua experiência e relação com os clientes. Mas é importante que ele exista, materialmente ou não, e que seja baseado na memória e na aprendizagem. Seja com clientes novos, clientes com anos de relação profissional ou com colegas de trabalho, é importante manteres-te coerente e capaz de agir racionalmente, ao invés de responder emotivamente a alguma provocação, oportunidade ou problema. Esse documento – que é mais um conjunto de experiências e guias – pode funcionar como uma consciência documentada.

Quando surge uma necessidade de agir, podemos fazê-lo de forma: entrópica – problematizando desnecessariamente as questões com que estamos a lidar –, reactiva – procurando de impulso resolver sem ponderar cenários e possíveis consequências –, ou equilibrada – agindo racionalmente com peso e medida, avaliando cenários, comparando com atitudes passadas, validando a resposta e assegurando que te estás a respeitar, enquanto respeitas os teus clientes e colegas.

Respeita o teu trabalho e respeita a tua comunidade.


Sobre a Classe B

Estamos prestes a lançar o nosso Blog em classeb.pt. Que artigos gostavas de lá encontrar? Que temas sentes que a comunidade insiste em não falar?
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Até lá

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